Piranha(MAA-1) - O Primeiro Míssil Brasileiro

(Parte II)

                                                                                                                                                                                   Foto Embraer Um modelo pré-serie do ALX bi-posto armado com dois MAA-1 Piranha.  

 

 

Estágio Atual do Programa Piranha

Após a publicação da Primeira Parte do Artigo do míssil Piranha, ocorreram dúvidas sobre a real capacidade do míssil, se o mesmo seria um vetor bélico válido, dentro do "estado da arte".  Por conta de tais fatos, o autor procurou maiores informações sobre algumas dúvidas que ainda pairavam no ar.

Várias fontes confirmaram a Empresa Sul Africana Kentron, como fornecedora do detector IR usado pela última configuração do Piranha. Ao tudo indica o detector conta com a mesma tecnologia desenvolvida para o míssil A-Darter.  Por sinal em audiência pública realizada em 11/07/2003,  no Congresso Nacional, o Comandante da FAB, o Brigadeiro Luiz Carlos da Silva Bueno, declarou a existência de um acordo firmando uma parceria entre o Brasil e a República da África do Sul, para o desenvolvimento de tecnologia bélica, principalmente, na área de mísseis.  

Tal detector de IR permite o rastreio em banda dupla, dois comprimentos de onda de radiação, ou seja, trata-se de um detector bicolor.  Permitindo, assim, a criação de uma imagem do alvo, ao invés dos modelos anteriores que perseguiam uma fonte de calor, os detectores de 5ª geração permitem formar uma imagem infravermelho.  Tornando virtualmente impossível o uso de engodos do tipo flare para enganar o míssil.  Somente os mísseis mais avançados possuem tal tipo de detector, tais como o MICA-IR, o Python 5, A-Darter e o AIM-9X.

Imagem extraída do seeker(autodiretor) do AIM-9X, momentos antes de destruir o alvo, um drone do Phanton F-4.  

Porém, a geração de uma imagem para qualquer tipo de cérebro eletrônico, implica numa grande capacidade de processamento, algo que parece ainda não ser possível para o Piranha, entretanto, a adoção de um detector IR de banda dupla, implica na quase imunidade do referido míssil contra os engodos, mesmo que seja pela comparação da velocidade original do alvo e do flare, mas também porque torna possível perceber a diferença da radiação IR da fonte original e do engodo lançado.

O uso de tal detector, ultrapassa a polêmica de o Piranha ser all aspect(capacidade de ser disparado em qualquer quadrante do alvo). Colocando as limitações atuais do míssil, no invólucro aerodinâmico(capacidade de manobras das superfícies aerodinâmicas e puxada em força g's de seus componentes internos) e seu processador(a capacidade do cérebro), para se tornar um míssil de 4ª geração, hoje, ele pode ser classificado como um míssil de 3ª geração com melhorias.  Por sinal é interessante notar que, ao contrário de afirmação anterior da Mectron, o Piranha passou por uma nova bateria de testes em Maio de 2003, segundo o próprio CTA e outras fontes.  O CTA entregou, no dia 13 de junho de 2003, o certificado de homologação do míssil MAA-1(míssil Piranha) para a empresa Mectron.  Segundo o Comandante da FAB, o míssil encontrava-se pronto para entrar em imediata produção.

E preciso se ressaltar que, tanto o CTA  quanto a FAB, através do NOTAER n° 11 de 2003, admitiram de forma clara, que o Piranha é um míssil de 3ª geração.  Não deixando  margem para qualquer dúvida sobre este fato.  Não se justifica, nos tempos atuais, a fabricação de um míssil IR sem capacidade all aspect, mesmo sendo meio(subsídios indiretos) para ajudar o desenvolvimento de armas no país.  O processo de nacionalização não deve ser absoluto, é preciso a cobrança de qualidade e eficiência dos vetores nacionais, para que cumpram, minimamente, os requisitos operacionais.

 

O que é o Piranha(MAA-1)?

                                                                                                                                                        Foto FAB   Um F-5E com a "versão final" do MAA-1, na bateria de testes para homologação em maio de 2003.

Nas palavras da própria Mectron:

"O MAA-1 é um míssil ar-ar de curto alcance, supersônico, de guiagem passiva, com detecção infravermelha do alvo, utilizado por aeronaves de alto desempenho nos combates aéreos do tipo "dog-fight" (perseguição a curta distância, dentro do campo visual do piloto).

Seu sistema de detecção de alvo opera através de radiação infravermelha emitida pela aeronave alvo (saída do turboreator ou aquecimento cinético da estrutura) o que possibilita o emprego "fire and forget" (dispare e esqueça).

Sua navegação é do tipo proporcional modificada, com atuadores de manobra pneumáticos a gás frio que defletem superfícies aerodinâmicas frontais (canards) aos pares. Sua configuração aerodinâmica é cruciforme com empenas alinhadas aos canards e controle de rolamento passivo com superfície aerodinâmica articulada nas pontas das empenas acionadas por efeito giroscópico (rollerons)."

 

Demais características:

Dimensões Massa............................................... 89 kg
Comprimento................................. 2750 mm
Diâmetro......................................... 152 mm
Envergadura................................... 660 mm
Manobras 50 g's
Controle e Guiagem Computador de bordo com Built-in-Test
Capacidade de descriminação de falso alvo
Velocidade de varredura do autodiretor: 35°/seg.

 

Infelizmente, a Mectron não divulga todos os dados de desempenho do MAA-1, mas é possível perceber que sua cabeça de guiagem é resfriada por criogenia, usando nitrogênio líquido.  Sua velocidade máxima está perto de Mach 03(três vezes a velocidade do som), seu alcance é de pelo menos 10 kms, usa uma espoleta laser ativa de proximidade ou por impacto, sua ogiva é pré-fragmentada e deve possuir cerca de 12 quilos de explosivos.  Possui ainda uma SAU(Unidade de Segurança e Armar), que permite o alinhamento da ogiva somente a uma distância segura da aeronave lançadora.  Os dados sobre o ângulo de visada lateral(off-boresight) também não são conhecidos, mas deve ser superior a 40° por hemisfério. 

Seus canard's são movimentados por gás frio(segundo a Mectron por nitrogênio), armazenado dentro de um pequeno vaso de pressão no interior do míssil. Uma pequena bateria térmica alimenta todos os seus circuitos eletrônicos. A cabeça de guiagem fica resfriada por meio de uma conexão umbilical até seu lançador, que fornece o gás, como também, as ligações elétricas e eletrônicas.  Como demonstra a foto abaixo.

 

Detalhe do MAA-1 em seu lançador, mostrando o seu "cordão umbilical".

 

 

 

Seqüência de Lançamento

A partir da comando de disparo, o motor do míssil inicia sua queima e, deixa de forma vertiginosa seu lançador, em menos de um segundo romperá a barreira do som.  Sua bateria térmica é acionada provendo energia para todos os seus circuitos, o lacre de seu vaso de pressão é rompido, enchendo de nitrogênio as câmaras internas do atuador pneumático dos canard's,  deixando-os assim prontos para serem movimentados segundo os comandos recebidos de seu computador de bordo.  Guiado pela lei da navegação proporcional, ao invés de perseguir o alvo diretamente o alvo, ele projeta um ponto futuro corrigido automaticamente conforme as variações de sua velocidade angular.  Quando o míssil se aproxima do alvo a SAU alinha o trem explosivo.  Agora com velocidade de quase três vezes superior a do som, o motor do foguete deixa de funcionar, movido pela inércia, o míssil se aproxima do alvo, explodindo por impacto direto ou proximidade, destruindo-o quase por completo, por conta das inúmeras esféricas metálicas que a da ignição de sua ogiva irá lançar ao ar, além do próprio sopro da detonação.

 

 

Outros Desenvolvimentos

 

Foto Mectron

  Duas máquinas projetadas e construídas pela Mectron, para dar apoio de 1°, 2° e 3° escalão ao míssil piranha, a da esquerda, é usada para carregar o nitrogênio e, a da direita, serve para aferição e controle dos sistemas de guiagem.

 

Além do míssil propriamente dito, o Programa Piranha gerou uma série de desenvolvimentos paralelos, tais como,  revitalização e modificação nos lançadores dos mísseis LAU-7 e LAU-100 para poderem operar o MAA-1, toda a logística de apoio ao solo para o vetor, como máquinas(fotos acima), ferramental especial e modelos derivados do míssil, como o MAA-1/T(míssil de treinamento), o MAA-1/E(míssil para exercício) e um modelo para instrução.  Foram também feitos manuais técnicos, recursos didáticos em audiovisual, além de cursos para pilotos e mecânicos de manutenção.

Porém, outros desenvolvimentos contaram com o apoio decisivo do CTA(Centro Técnico Aeroespacial), através de seu instituto IAE(Instituto de Aeronáutica e Espaço) e do IFI(Instituto de Fomento Industrial), que viabilizaram e participaram de todos os ensaios realizados, dando apoio técnico imprescindível para a Mectron, evitando a duplicação de esforços e minimizando os investimentos necessários.  Um deles foi a tecnologia para ensaiar mísseis ar-ar IR, inclusive, com a criação de um alvo aéreo específico.

 

 

IAE

O Instituto de Aeronáutica e Espaço nasceu da fusão, em 07 de janeiro de 1991, do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento e do Instituto de Atividades Espaciais. É hoje o maior dos institutos do CTA(Centro Técnico Aeroespacial) com cerca de 1200 servidores e com um amplo conjunto de laboratórios, atuando como suporte dos projetos e atividades sob sua coordenação.

A história do Brasil foi marcada, em vários momentos, pela atuação decisiva do IAE, quando, pelo uso da criatividade e competência de seus técnicos, ofereceu soluções que vieram a resolver problemas, ou assegurar o progresso. Assim, podemos lembrar do programa do álcool, da indústria aeronáutica brasileira, da indústria de armamento aéreo, do programa espacial brasileiro, isto só para citar algumas das contribuições diretas e realmente comprovadas. Hoje, o IAE atua em três subprogramas principais: aeronáutico, bélico e espacial. Entretanto, tendo em vista a larga capacitação adquirida em seus laboratórios, desenvolvem-se projetos, os mais diversos, que beneficiam vários segmentos de interesse nacional.

Dentre estes, podemos citar a área de materiais onde inúmeras contribuições são oferecidas ao setor médico (válvulas de coração, próteses ósseas, etc.), a área de motores automotivos, a indústria de construção civil, etc.. Dentro dos três subprogramas citados destacam-se alguns projetos em andamento, como: veículo lançador de satélites (VLS), o míssil Ar-Ar (piranha) e o avião leve de ataque (ALX).

 

Alvo flare:

Arte do alvo aéreo usado nos testes e ensaios de campo do míssil Piranha.

 

Desde de 1994, os ensaios de desenvolvimento e de homologação do MAA-1 Piranha tem utilizado, como alvo aéreo, o flare iluminativo com pára-quedas (parachute flare, LUU-2B/B), lançado de helicóptero, conforme previsto no contrato entre o CTA e a Empresa Mectron. No desenvolvimento deste alvo aéreo, realizado pela Divisão de Sistemas Bélicos (ASB) do IAE, foram adaptados refletores metálicos ao flare, para permitir o acionamento da espoleta ativa laser do míssil e, também, aumentar a refletividade radar do alvo.  A geometria de apresentação do alvo, no momento do lançamento, foi definida com base nas manobras previstas para o míssil no ensaio. A utilização deste alvo se mostrou muito eficiente em termos de custo/benefício.

 

Propelente e Ogiva:

Detalhe do motor e da tubeira do MAA-1.

O IAE também ficou encarregado de desenvolver todos os itens ativos do míssil, tais como o propelente do motor foguete e a cabeça de guerra.

Quando em 1994 a Mectron reiniciou o Programa do Piranha, todos os conceitos dos subsistemas do míssil já estavam definidos e funcionando em laboratórios de testes, porém, nunca um motor foguete brasileiro havia sido homologado para uso aeronáutico.  Apesar da longa experiência com motores de foguetes da família Sonda, o motor do míssil Piranha apresentava a necessidade de confiabilidade muito superior, já que qualquer falha poderia representar a destruição da aeronave lançadora.  Isto significou um árduo trabalho de ensaios com os motores, de vibração, de temperatura, envelhecimento acelerado até que se atingiu o nível de segurança desejado.  Este trabalho foi realizado pela AQI(Divisão de Química) e AEV(Divisão de Ensaios de Vôo) do IAE.

 

 

 

Detalhe da Ogiva(cabeça de guerra) do MAA-1.

Trabalho semelhante foi executado na ogiva do míssil, pela ASB(Divisão de Sistema Bélicos) do IAE.  Da mesma forma a cabeça de guerra do míssil, não poderia de forma alguma ser detonada indevidamente.  O nível de segurança alcançado foi tal, que uma metralhadora 0.50 polegadas pode ser disparada contra a mesma, sem que exista detonação.  Isto foi conseguido graças à arquitetura da ogiva, ela só pode ser detonada após o lançamento do míssil dentro dos parâmetros previstos, tornado o manuseio do míssil completamente seguro no solo.

 

Ensaiando um míssil ar-ar:

Foto FAB 

Um F-5E da FAB com os MAA-1's, durante a fase de ensaios do míssil.

A Divisão para Ensaios de Vôo(AEV) do IAE, ficou também responsável pelos lançamentos efetuados na Barreira do Inferno do míssil MAA-1.   Até o desenvolvimento do Piranha, a FAB e o país não tinham experiência ou uma cultura de lançamentos e ensaios de mísseis ar-ar, foram raros os lançamentos deste tipo de vetor pela força.  Assim, o IAE teve que criar procedimentos, práticas e processos necessários para fazer os ensaios do míssil.   

Toda a operação de um único lançamento tem que ser rigorosamente sincronizada, cada campanha de lançamento envolve pelo menos 03 aeronaves, uma encarregada do lançamento, outra, chamada de Paquera, responsável pela filmagem e apoio a aeronave lançadora.  Além disso existe uma outra que cuida do transporte e lançamento do alvo.    Além disso, podemos citar os seguintes passos e itens envolvidos num único lançamento:

1- Condições climáticas e o horário(somente de dia até as 16:00 hs);

2- Estações de telemetria e radares de trajetória;

3- Comunicações;

4- Treinamento de pilotos e equipes envolvidas;

5- Análise e interpretação dos lançamentos;

6- Integração dos lançadores e mísseis nas aeronaves;

7- Filmagens convencionais e com câmeras de alta velocidade, em diversos pontos estratégicos.

A segurança da área de lançamento é outra tarefa muito complexa, no CLBI (Centro de Lançamentos da Barreira do Inferno), localizado em Natal/Estado do Rio Grande do Norte, além do espaço aéreo interditado, se faz necessário à patrulha marítima por ser uma região costeira.

Parte III do Artigo