Navios para uma Marinha de Guerra

 

 

Introdução

 

As Fragatas da Classe Lafayette representam hoje o "estado da arte" em termos desta classe de navios, com grande capacidade bélica, alcance e desenho furtivo.  Com 125 metros de comprimento e 15,4 de largura, deslocam cerca de 3.600 toneladas carregadas.

Muito se tem discutido sobre o tamanho ideal, o deslocamento, da Classe de Navios  para servir de base para uma moderna marinha de guerra.  Alguns defendem um número maior de navios menores, construídos em larga escala, enquanto outros propugnam um menor número de navios com maior deslocamento, mais capazes de autonomia, tonelagem e armamento.  Entretanto, sem uma definição dos objetivos para um determinado poder naval, uma Marinha específica, será impossível uma tomada de posição, uma defesa de um ponto de vista. Em seguida, torna-se necessário o estudo de alguns parâmetros operacionais e técnicos, para finalmente escolhermos o "navio ideal".

 

A finalidade do poder naval

É opinião quase unânime, entre os estudiosos do poder naval, que sua principal característica é sua capacidade de projetar poder, ao contrário das forças terrestres e aéreas, uma Esquadra pode mover-se livremente pelos oceanos do planeta, o limite das águas territoriais se estendem no máximo até a Zona Contígua(24 milhas a partir da costa nacional).   Assim, nenhum outro poder bélico desfruta igual mobilidade em tempos de paz.  Uma Marinha de Guerra é uma força que antes de tudo pode ser capaz de projetar poder, além de defender sua costa e suas linhas de comércio marítimo,  esta defesa se traduz, sobretudo, na capacidade de um contra-ataque.  Uma marinha de guerra com esta capacidade é designada de marinha oceânica ou de águas azuis.

Uma Marinha Costeira é uma força naval que abdicou de sua capacidade marítima(oceânica) além da sua ZEE(Zona Econômica Exclusiva - até 200 milhas a partir da linha costeira),  na verdade é uma "Super Guarda Costeira", muito mais apta para prestar serviços administrativos(poder de polícia) e salvamento marítimo(SAR), que ser um instrumento de participação de um conflito bélico.  Uma Guarda Costeira é antes de tudo uma força de segurança, que uma Força Armada, não servindo para ser usada em conflitos totais, aonde não existem limites para atuação das unidades militares(navios).

Portanto, existe primeiro a necessidade de uma delimitação para a finalidade do poder naval nacional, afim de sabermos que tipo de marinha queremos.  Esta decisão política será o pressuposto para a escolha dos "Navios Ideais" para esta força naval. Porém, é preciso deixar bem claro que uma marinha capaz de projetar poder em larga escala, poderá fazer frente a qualquer necessidade naval, o que não ocorrerá com uma Marinha Costeira ou Guarda Costeira.

Além disso podemos ainda ressaltar que a existência de uma marinha de guerra, capaz de projetar poder, não impede a existência paralela de uma Guarda Costeira ou que parte dos meios de uma marinha de guerra seja destinado ao uso costeiro.

 

Os aspectos geográficos da plataforma marítima

Os Oceanos da Terra representam 2/3(70,8%) da superfície do planeta, ou 361milhões kms quadrados, nenhum ponto do território terrestre fica mais distante que 2.000 milhas náuticas ou cerca de 3.700 kms de algum oceano aberto.  Ao contrário dos outros continentes, a América e a Oceania são os únicos que não possuem ligação terrestre com resto do globo.  O Continente Americano pode ser visto geograficamente como duas gigantescas ilhas ligadas pelo istmo do Panamá.  

Devemos também considerar as características físicas(geográficas) da plataforma marítima, segundo a localização do estado nacional no globo terrestre, seu poder naval poderá ser mais costeiro que oceânico.  Estamos nos referindo a países que dispõe de uma pequena costa marítima e/ou uma reduzida plataforma marítima, como são o caso de países localizados em mares impedidos ou fechados por obstáculos naturais das mais diversas naturezas, tais como: arquipélagos, golfos e mares compartilhados, aonde por força do ambiente geográfico o mar territorial é inferior às 12 milhas, ou por possuírem ZEE's sobrepostas.  Podemos citar o Mar Báltico (Escandinávia), o Golfo Pérsico e o Mar Mediterrâneo como exemplos. 

Parece correto afirmar que estas condições geográficas deverão ser levadas em conta para a definição do poder naval nacional, sua Marinha e seus meios navais.

 

Os aspectos operacionais e técnicos

Considerando os aspectos já citados neste artigo, podemos dizer que existem a grosso modo dois grande grupos de marinhas nacionais, aquelas que por suas limitações geográficas e diretrizes estratégicas optaram por possuir uma Marinha Costeira, ou uma Super Guarda Costeira e o segundo grupo, que optou por possuir uma Marinha Oceânica.  Estas escolhas parecem ter, também, forte conteúdo político-econômico que foge ao escopo deste artigo.  Nos interessa aqui é saber quais serão os principais meios(os navios ideais) de cada uma dessas forças navais.

Inúmeros estudos vem demonstrando que uma Marinha Oceânica deve ser composta por navios capazes de fazer operação independente fora de sua área de operação, ou seja, sua plataforma marítima nacional, e o mínimo aceitável em tamanho, desempenho, armas e sensores nos aponta para o uso de uma plataforma com pelo menos 125 metros de comprimento e uma boca(largura) de 14/15 metros, deslocando pelo menos 3.500 toneladas, uma Fragata como "navio ideal".  Já no caso de uma Marinha Costeira é possível o uso de navios menores, conhecidos atualmente como Corvetas que deslocam entre 650 e 1500 toneladas, mas podem chegar até 2.000 toneladas.  Se estivermos falando de uma Guarda Costeira, o "navio ideal" será o NPO(Navio de Patrulha Oceânico).

 

As Fragatas

As Fragatas Inglesas Tipo 22 lote 3(Classe Cornwall) tem o deslocamento de 4.900 toneladas, com 140 metros de comprimento e 14,8 de boca, equivalente ao de um Contra-Torpedeito moderno, mas apesar de possuir um armamento variado para guerra ASW, de Superfície e AAé(anti-aéreo), não possui mísseis AAé de longo alcance(área).

A designação naval Fragata foi reintroduzido no vocabulário naval pela Royal Navy durante a Segunda Guerra Mundial, para caracterizar um navio de escolta anti-submarino de longo alcance produzido em massa, por ser um casco barato de uso civil adaptado para tarefas militares.  Porém, após a Segunda Grande Guerra os ingleses mantiveram o termo Fragata para navios com cascos militares, propulsão de primeira classe(hélices e lemes duplos com velocidade de 30 nós, impulsionadas por turbinas) para uso ASW(anti-submarino) e E/G(Emprego Geral), ou seja, cumprindo tarefas dos antigos contra-torpedeiros de escolta.  Esta terminologia resultou em mais de cinquenta anos de confusão entre os termos fragata e Contra-Torpedeiro(CT). Contudo, para a maioria das marinhas do mundo, as fragatas são os maiores e mais poderosos navios de suas frotas.   O termo CT ficou marcado para as Escoltas acima de 4.500 toneladas capazes de defesa AAé de área, além de conservarem capacidades anti-ASW e anti-superfície.   Assim, as Fragatas são hoje os menores navios de uso geral e ASW, ainda capazes de operar de forma independente fora de sua plataforma marítima.  Isto implica na instalação de armamento de ataque à superfície pesado, de defesa AAé de médio/curto alcance e uma grande capacidade  de guerra anti-submarino, além de poder operar  um helicóptero médio-grande.  Esta capacidade de uso geral deve ser acompanhada pela capacidade para fiscalização marítima de baixa intensidade e serviços de patrulhamento de longo curso.  Trata-se na verdade do navio de serviço("navio ideal") das Marinhas Oceânicas ou chamadas de águas azuis. O deslocamento mínimo para fazer frente aos requisitos operacionais descritos aqui é de 3.500 toneladas, menos que isso implicará na redução, perda de algumas das citadas capacidades. 

A Fragata pode integrar grupos tarefas de navios, ser escolta de Navios-Aeródromos, fazer patrulhas independentes e qualquer outra atividade que se espera de um navio de guerra. 

 

As Corvetas

As Corvetas de Oman da Classe Qahir podem ser consideradas navios representativos de sua categoria, deslocando cerca de 1.450 toneladas, com 84 metros de comprimento e 11,5 de boca, apesar  de possuir um armamento variado para guerra ASW, de Superfície e AAé, ela não tem um hangar para helicópteros.

A categoria Corveta também reapareceu no vocabulário naval pouco antes da Segunda Guerra Mundial. A Royal Navy reintroduziu o termo para designar os pequenos navios de escolta anti-submarino, de baixo custo e de construção rápida da Classe Flower. Estes eram baseados num desenho de uma traineira de pesca e destinavam-se a um suplemento de emergência aos navios patrulha(avisos) existentes, estes construídos com padrões de navios de guerra. No Pós-Guerra, o termo caiu de novo em desuso, mas recentemente voltou a ser empregado. Os projetos modernos de Corvetas dividem-se em duas categorias: as corvetas rápidas de ataque(baseadas nos FBP's - Barcos de Patrulha Rápidos - ampliados e melhorados) com deslocamento de até 1.000 toneladas, e fragatas ligeiras com deslocamento entre 1.000 e 2000 toneladas, como as Classe Meko 100 e Classe Inhaúma/Barroso, que deslocam mais de 1.900 toneladas. Cada abordagem tem desvantagens inerentes em comparação com as Fragatas comuns, em particular no que toca à capacidade permanência nos vários estados de mar, autonomia e raio de ação, levando a uma definição proposta de serem "os maiores navios incapazes de operarem independentemente fora de área".  Assim, nenhuma Corveta foi projetada para fazer operações oceânicas contínuas.  Também não foram projetadas para integrar uma Força Tarefa, servir de escoltas de longo curso.  Seu uso é restrito à Plataforma Marítima Nacional.

Portanto, a Corveta apesar de ser um navio de guerra, não é capaz de ser um navio de categoria oceânica, como conseqüência é o tipo ideal para as Marinhas Costeiras, mas que não abdicaram de atuar em um conflito bélico em "águas marrons", costeiras. Elas também são navios ideais para os países que tem um litoral impedido por arquipélagos e outros acidentes geográficos, tais como: estreitos, pequenos mares internos, fiordes e etc.. 

 

O NPO(Navio de Patrulha Oceânico)

Apesar de serem classificadas como Fragatas de Patrulha e Salvamento, a Classe Floréal Francesa é um dois maiores NPO's já construídos, com um deslocamento de  2.900, 94 metros de comprimento e 14,4 de boca, a Marinha da França os utiliza como Guarda Costeira Colonial, como no caso da Guiana Francesa.  Apesar de seu deslocamento, sua velocidade máxima é de 20 nós e seu armamento é composto por apenas um canhão de 100mm, 02 de 20mm e 02 mísseis Exocet MM-38. Ele também pode operar e hangarar um helicóptero.

A classificação naval NPO é muito antiga e nunca foi precisamente delineada até meados da Segunda Grande Guerra, na US Guard Coast a designação do NPO é Cutter.   Nas últimas décadas do século passado o termo passou a designar navios de patrulha de longo curso, para cumprirem tarefas administrativas(poder de polícia) e salvamento(SAR).  São os navios típicos das Guardas Costeiras, podendo ser adaptados de outros cascos como rebocadores oceânicos ou de corvetas sub-armadas, como podem ser construídos para esta função específica.     Seu armamento e sensores eletrônicos são adequados para o seu uso civil,  insuficientes para serem utilizados em conflitos bélicos.  Em regra seu casco tem propulsão de segunda categoria, composta por um leme e eixo, atingindo velocidades máximas de 20 nós.   Existe também classes de Corvetas sub-armadas cumprindo o papel de NPO's, caso das F-70(Classe Serviola) espanholas.  Sendo um recurso interessante para marinhas com dificuldades econômicas ou para países que não dispõe de uma Guarda Costeira.

Tais navios tem uso duvidoso para uma Marinha de Guerra, sua função de patrulha a longa distância junto a Plataforma Marítima pode ser substituída por aviões para patrulha de longo curso, como os P-3 Orion's, de forma muito mais eficaz e econômica.  

 

O Armamento

Uma das soluções para a modernização da Esquadra Brasileira é a compra de ocasião de navios usados para a cobertura AAé de área, como os CT's da Classe La Penne da Marinha Italiana que ficarão disponíveis, em breve, possuem grande padronização com a esquadra brasileira, supririam uma lacuna importante em nossa força de superfície.  Podem ser a solução de baixo custo para este fim(defesa anti-aérea de área).

Sem dúvida o armamento está se tornando um grande problema a ser solucionado pelo projetista naval.  O aumento de sua complexidade, quantidade e dos sensores a ele associados está fazendo com que exista uma pressão para a ampliação do casco, um maior deslocamento para navios da mesma classe de referência.   Assim, Corvetas, Fragatas e CT's estão proporcionalmente cada vez maiores perto de seus antigos irmãos.  Neste novo cenário, existem Corvetas com quase 2000 toneladas de deslocamento, Fragatas com mais de 4.000 toneladas e Contra Torpedeiros deslocando mais de 5.000 toneladas.

Uma das soluções encontradas é a especialização das funções dos navios, reduzindo a quantidade de armas e sensores a bordo.  Surgindo assim pelo os termos escolta ASW(para guerra anti-submarina), AAé(para defesa aérea de longo alcance) e EG(para Emprego geral  e Guerra de Superfície).   Podemos observar que as Corvetas e Fragatas são para guerra ASW e E/G, contanto com defesa AAé apenas de curto alcance.  Já os Contra Torpedeiros possuem um armamento voltado para a guerra AAé, porém conservando capacidade guerra ASW  e de E/G.  Por este motivo seu deslocamento é superior Fragatas.  Contudo, existem hoje marinhas nacionais classificando de Fragatas navios com deslocamento de CT's com capacidade de defesa AAé de área(longo alcance), como é o caso da Classe F-100 espanhola.  O mesmo raciocínio vale para a Classe de Corveta Barroso da Marinha Brasileira, que desloca cerca de 2.300 toneladas, ou seja, uma Fragata Leve.

 

Canhões e mísseis

Até recentemente existiam muitos defensores para o fim do canhão médio(03 polegadas ou 76 mm até 155 mm ou cerca de 06 polegadas) para uso naval, por conta disso, algumas classes de navios dispensaram o seu uso, como as Fragatas Inglesas Tipo 22 Lotes 1 e 2.   Porém, experiência reais de combate demonstraram a necessidade do uso desses armamentos de tubo.  Os calibres maiores devem ser preferidos no apoio de fogo terrestre e naval, enquanto os calibres menores são mais eficientes para uso AAé(anti-aéreo).  Algumas classes de navios estão usando calibres menores, como Bofors de 57 mm.  Os navios maiores podem contar com uma combinação de canhões dotados de diferentes calibres.

As Fragatas e CT's modernos possuem geralmente um canhão naval médio na proa e canhões secundários de menor calibre para uso AAé.  Já as Corvetas estão mantendo o mesmo tipo de configuração, entretanto, os calibres usados costumam ser mais leves de 40 mm até 76 mm.  Quanto ao armamento dos NPO's costuma-se usar um canhão médio naval na proa, podendo ser um modelo usado ou antiquado e metralhadoras até 20mm como armas de apoio.  Como sua função é basicamente administrativa, não existe a necessidade de sofisticação em qualquer de seus sistemas de armas e sensores.   

A Marinha do Brasil está padronizando sua esquadra com dois calibres navais, o 40 mm e o 114 mm, mas ainda conserva grandes estoques de munição de 127 mm ou 05 polegadas, em virtude de ser este o calibre dos CT's da Classe Pará(ex-FFG Classe Garcia da US Navy), os canhões de 127mm/38 Mk-30 usados nesta classe são os mesmos das antigas classes de CT's da US Navy, construídos durante a Segunda Grande Guerra.  Outro calibre padronizado pela MB é o de 20mm, porém, a Marinha Brasileira classifica os calibres abaixo de 40 mm como metralhadoras. O canhão de 40 mm padrão é o Bofors, em várias versões, o canhão de 114 mm(cerca de 4,5 polegadas) é o Vickers MK 8.

Quanto aos mísseis existem uma variedade de tipo e usos, bem como, com alcances e sistemas de guiagem dos mais diversos.  Um navio de guerra de superfície como Corvetas, Fragatas e Contra-Torpedeiros deverá contar com pelo menos uma bateria de mísseis anti-navio e outra dedicada ao uso AAé.  Os navios maiores poderão ter mais de uma bateria de mísseis AAé, ou utilizar mais de um tipo de míssil, sobretudo para defesa anti-míssil.  A problemática dos sistemas de defesa de ponto anti-míssil é complexa e foi tratada pelo Infomar no artigo Defesa Anti-Míssil: Uma Opinião. Também algumas classes estão sendo equipadas com mísseis cruise para ataques terrestres(projeção de poder), o mais conhecido deles é o Tomahawk dos EUA.

Modernamente o que vem se verificando é uma quase padronização nos sistemas de lançamento dos mísseis, quase todos os modelos em uso ou novos estão sendo fabricados para serem lançados de modo vertical, a partir de paios fixos da estrutura do navios, ao contrário dos lançadores direcionáveis(móveis).  Tal prática foi inicialmente criada para permitir o múltiplo lançamento(engajamento), mas também representa uma economia de recursos e peso na superestrutura do casco, permitindo um desenho mais furtivo ao radar.  No entanto, quanto a guiagem não existe sinal de qualquer padronização, nos modelos de maior alcance a guiagem ativa ou semi-ativa(por radar) é a preferida, mas em curtas distâncias existem modelos de guiagem por visada, a laser, IR(infravermelho), entre outras.  Além disso, o sistema de guiagem também é definido pelo tipo de uso do míssil, anti-superfície, AAé, ASW, etc..

 

Aeronaves embarcadas

Este item vem se tornando obrigatório para os navios de porte de uma Fragata Leve(acima de 1900 toneladas), não só a presença da pista de pouso como de seu hangar.  Para as Corvetas a demanda tem sido para contarem com uma pista de pouso, ainda que não tenham capacidade de hangaragem.  O NPO's acima de 800 toneladas também devem contar com este mesmo tipo de capacidade, sendo o ideal possuírem um hangar, não precisarão de capacidade para operarem helicópteros maiores ou médios, apenas um modelo leve, porém para as Fragatas o ideal é a adoção de modelos médios ou médios/grandes, do porte de um Sea King ou Merlin. 

As aeronaves embarcadas podem efetuar ataques navais, terrestres e ASW, podendo ainda vetorar o lançamento de mísseis anti-navio de alcance além do horizonte.  Podem ser usadas em fainas de desembarque de tropas e comandos, bem como, o transporte e emprego geral. Aumentando, portanto, de forma significativa as capacidades de uso do navio que delas dispõe.

 

Propulsão Naval e o Formato Furtivo

O navio conceito britânico Trimarã, construído pelos estaleiros Vosper, pode revolucionar a questão do casco naval para uso bélico.

O sistema de propulsão naval, assim como o projeto  geral do casco do navio, sofrem bem menos os efeitos do avanço da tecnologia.  O sistema propulsivo do ponto de vista externo é composto por pelo menos dois eixos com hélices de passo variável e lemes duplos, este é considerado a propulsão de primeira categoria, fundamental para os navios de linha de batalha.  Já os NPO's e outros navios de patrulha podem usar um sistema de propulsão externo de um eixo e leme, mas esta configuração aumenta muito a vulnerabilidade para avarias de combate.  Para os navios de primeira linha a velocidade máxima deverá ficar entre 28 e 30 nós, com uma velocidade de cruzeiro em torno de 20 nós, para os NPO's e assemelhados a velocidade máxima pode ser em torno de 20 nós, com velocidades de cruzeiro inferiores. 

Do ponto de vista da configuração das máquinas responsáveis pelo movimento dos hélices, o sistema de caldeiras e turbinas a vapor, muito usado até meados da década de 1950, foi descontinuado para as escoltas, passando a serem usados sistemas que combinavam turbinas a gás(de uso aeronáutico) e motores diesel.   Outra combinação possível é o uso de dois tipos de turbinas, uma para o cruzeiro e outra para a velocidade máxima.  As classes mais modernas também  podem ser movidas somente por motores diesel(caso das Fragatas Lafayette). O sistema que combina motores diesel(cruzeiro) e turbina(velocidade máxima) é conhecido por CODOG(combined Diesel or Gas), está é a opção da maior parte dos navios da MB, como a Classes Niterói e Inhaúma, o sistema com dois tipos de turbinas é conhecido como COCOG(combined Gas or Gas), as Fragatas Tipo 22 usam esta configuração de máquinas, e com apenas um único tipo de turbina é o COGAG, sistema usado pelas Fragatas Oliver Hazard Perry.  Mais recentemente está surgindo um sistema que combina turbinas a gás e motores elétricos, são conhecidos como CODLAG, usam motores diesel alimentando geradores elétricos ou turbo-alternadores gerando energia para os motores elétricos(Fragatas Inglesas Tipo 23), responsáveis  pela velocidade de cruzeiro e turbinas para a velocidade máxima.  Todas estas combinações de máquinas são do tipo independentes, não acopladas, ou seja, a potência dos dois sistemas não atuam em conjunto, usando para a velocidade máxima apenas o conjunto de turbinas.  Porém, as Fragatas Alemães da Classe F 124 utilizam um inovador sistema CODAG(Combined Diesel and Gas) que usa apenas uma turbina GE LM 2500, que é acoplada aos motores diesel quando o navio necessita de velocidade máxima, através de uma transmissão central.  Neste caso soma-se a potência dos motores diesel  e da turbina.

No futuro os novos navios da Royal Navy deverão usar somente propulsão elétrica, baseada em motores de propulsão magnética permanente (Permanent Magnet Propulsion Motors – PMPM) alimentados por geradores de turbina a gás de ciclo avançado (Advanced Cycle Gas Turbine – ACGT) para as próximas três classes de navios.

Quanto ao projeto geral do casco poucas modificações foram introduzidas. O desenho geral do casco vem sendo modificado para diminuir as assinaturas de radar, infravermelho e acústica.  Também existe uma tendência para o uso de materiais mais leves na estrutura do casco, apesar do uso de alumínio ter sido descartado para as superestruturas, que continuam compostas basicamente de aço, vem sendo utilizado atualmente o Kvelar para adicionar blindagem ao casco sem o aumento de deslocamento significativo do navio.   As modificações das linhas gerais do navio para não refletir as ondas de radar, estão sendo de tal ordem que em breve ficarão irreconhecíveis em face aos seus antigos "irmãos".   A Royal Navy patrocinou recentemente a contrução de um navio conceito conhecido como Trimarã, trata-se de um navio de casco múltiplo, composto por 03 cascos ligados pelo convés.  Este tipo de projeto visa tentar aumentar a estabilidade do casco com a diminuição da resistência marítima, conseguida através de uma menor largura dos cascos múltiplos.  Este conceito também permite um convés maior.

 

O "Navio Ideal" para a Marinha Brasileira

Não é segredo que a empresa brasileira Emgepron vem trabalhando no projeto de uma Fragata Furtiva de pelo menos 6.000 toneladas de deslocamento, com cerca de 140 metros de comprimento e uma boca entre 17/19 metros.  Esta Fragata não necessitaria de um modelo derivado para defesa AAé de área, afim de economizar custos. O desenho geral dos navios seriam baseados nas Classes FREMM ou F-100.  

 

Como já ficou ressaltado, não é possível escolher os navios de uma Marinha de Guerra, sem a visualização de um caso específico, real.  A Marinha do Brasil sempre se pretendeu, e foi, uma marinha de guerra oceânica, esta opção estratégica vem sendo perseguida desde o final do século XIX, com a encomenda de grandes couraçados na Inglaterra. 

 

Do ponto de vista geográfico a América do Sul é um continente praticamente isolado por mar, uma grande ilha, o comércio mesmo regional é feito na maioria das vezes por mar, uma vez que a Cordilheira dos Andes e a Floresta Amazônica são obstáculos naturais que impedem o comércio por via terrestre em larga escala. A Plataforma Marítima do Brasil é ampla e desimpedida, com poucas ilhas oceânicas com porte suficiente para abrigar grandes instalações militares, a costa brasileira é pouco acidentada e com uma imensa extensão(mais de 7.000 Kms).  Compondo assim uma vocação natural para o poder naval oceânico, apesar do imenso território continental de nosso país.  Ademais, a exploração de petróleo em nosso país vem 90% da plataforma marítima, tudo leva a crer que a riqueza contida no inexplorado Atlântico Sul e no Continente Antártico serão alvo de futuros conflitos com nações fora deste teatro de operações.

 

Portanto, parece que levando em conta o quadro acima descrito e a inexistência de uma Guarda Costeira no Brasil, é inevitável que a MB possua uma parte de seus efetivos destinados a patrulha e ao salvamento marítimo, devendo evitar, contudo, o uso das Corvetas, tendo como navio base de sua esquadra a Fragata, com um frota de NPO's de no máximo 1.000 toneladas, ajudados por uma ampla vigilância aérea de sua costa.  Este procedimento faria os NPO's e outros navios patrulhas menores os guardas de nossas Águas Territoriais e a chamada Zona Contígua(até 24 milhas náuticas da plataforma continental), deixando a tarefa principal de vigia da nossa ZEE(Zona Exclusiva Econômica) para os aviões, cabendo a eles o direcionamento dos navios da MB mais próximos aonde fossem  necessários.   Somente nas regiões aonde se fizesse mais premente ficariam cobertas com patrulha oceânica realizado por navios de forma regular.  Este tipo de procedimento diminuiria o gasto com a guarda de nossas águas litorâneas, possibilitando sua concentração nas áreas prioritárias.  A parceria estreita com a FAB(Força Aérea Brasileira), poderia ser muito útil ao melhor patrulhamento de nossas águas, em tempos de um Ministério da Defesa, será muito útil a unificação de certas operações bélicas entre os 03 ramos de nossas Forças Armadas.

 

As Fragatas Tipo 22 lote 3 também ficarão disponíveis, em breve, com a vantagem de possuírem grande padronização com outros navios em uso da Armada Brasileira, como a Classe Niterói e Greenhalgh, porém seu armamento AAé é de curto alcance, podendo ser, devidamente modificadas, para os padrões da Marinha do Brasil, com a troca do CIWS Goalkeeper pelo Trinity e os mísseis Harpoon por Exocet's. 

 

Muito se discute sobre o problema orçamentário para a compra de grandes navios de guerra(Fragatas e Contra Torpedeiros), muitos alegam que o baixo orçamento dedicado ao Ministério da Defesa do Brasil pode comprometer a renovação de meios da Esquadra Brasileira.  Me parece que este tipo de preocupação é procedente, mas deve ser encarada de forma relativa.  As verbas orçamentárias podem ser aumentadas em caso de necessidade, ou sofrerem acréscimos extras para a compra de novos vetores bélicos.  A Marinha do Brasil ainda conta com a possibilidade da compra de navios de guerra usados, ao contrário de outros ramos da tecnologia bélica, a plataforma naval(casco, propulsão, etc.) evolui muito mais lentamente que as plataformas terrestres e aéreas, tendo uma vida útil que facilmente ultrapassa 30 anos de uso, desde que, devidamente atualizada em seu sistemas de armas e sensores e mantidas por revisões periódicas para a manutenção do casco. 

 

Uma política conseqüente para a renovação dos meios navais saberá mitigar a compra de navios usados e a construção nacional de uma parcela das belonaves.  Porém, deve dar prioridade a operação e manutenção independente dos meios importados, ter capacidade técnica para impedir os efeitos de embargos de peças dos fornecedores externos. Mais uma vez me parece que este tipo de procedimento vem sendo adotado pela Marinha do Brasil.  A nacionalização de meios e o incentivo à industria bélica nacional não pode ser feito a custa da operacionalidade do conjunto de nossa força naval, mas deve ser perseguido como solução para nosso poder bélico no futuro.