(Parte I)
Foto Marinha do Brasil

O NAe São Paulo(ex-Foch) da Marinha do Brasil, é um navio do tipo CTOL.
Introdução
O Decreto Lei nº 2.538/98, autorizando a Marinha do Brasil(MB) a operar aviação embarcada, abriu novos horizontes para a Aviação Naval, anteriormente restrita ao uso de helicópteros. A este fato, somam-se a compra dos aviões A-4(AF-1 para a MB) do Kuwait, bem como, do "novo" NAe(Navio Aeródromo) São Paulo A-12(Ex-Foch) junto aos franceses, dando um contorno definitivamente inédito ao setor aéreo de nossa Armada. Porém, está claro que estes acontecimentos significam apenas um início alentador para operação de aviões a bordo de Navios na MB, a formação de um esquadrão totalmente operacional em nossa Armada ainda levará alguns anos e o grau de eficácia bélica deste esquadrão dependerá em muito dos próximos passos a serem dados nesta área. Me parece correto afirmar que somente os meios para o treinamento e a operação básica estão assegurados, faltando muito em termos de equipamento e material humano para conseguirmos possuir uma aviação embarcada capaz de fazer frente às múltiplas novas ameaças bélicas/geopolíticas do mundo pós guerra-fria. O artigo que se segue tenta dar conta das alternativas disponíveis e necessárias para tornar a Aviação Naval de asa fixa uma arma (corpo) de atuação multifuncional e decisiva na guerra naval para a MB.
A nova Geopolítica Mundial
O fim da Guerra-Fria fez com que o quadro geopolítico mundial ficasse semelhante aquele existente antes da 1a Guerra Mundial, com uma única superpotência bélica dominante, agindo segundo seus interesses de momento, num sistema de alianças políticas muito menos rígido que o anterior, não existem mais aliados necessários e eternos neste novo mundo. Cabendo cada nação prover sua própria defesa externa, o guarda chuva protetor do chamado dominó político se desfez com o fim do sistema bi-polar de poder mundial.
A rapidez e a imprevisibilidade dos acontecimentos, como os atentados em Nova Iorque de 11 de setembro de 2001 demonstraram, requerem um planejamento e um preparo que não admitem improvisações de última hora, nos tempos atuais a defesa nacional é algo a ser pensado e desenvolvido por profissionais capacitados em ações integradas(planificação). Assim, políticas de defesa devem ser integradas a um projeto nacional de desenvolvimento e uma indústria bélica brasileira de suporte.
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"As Forças Armadas não são uma espécie de seguro que a nação faz, que garanta o seu emprego apenas nos momentos de grave crise; uma política hábil faz uso permanente delas na defesa dos interesses nacionais, tanto na condição de paz como na de guerra. O emprego do poder militar como instrumento da política nacional amplia o leque de opções políticas à disposição do governo: o adequado uso do poder naval dos Estados Unidos durante a crise dos mísseis, pela aplicação eficaz da quarentena contra Cuba, numa ação típica de emprego político do poder naval, tornando desnecessário o ataque aos cargueiros soviéticos que transportavam mísseis, que poderia provocar uma escalada de efeitos imprevisíveis mostra a importância de se dispor de opções abaixo do limite da violência. A procura de uma missão "de paz" para as Forças Armadas - a sociedade brasileira considera as hipóteses de conflito completamente irreais- não tem, pois sentido. Atribuir institucionalmente às forças armadas o controle ao crime organizado. Em especial o tráfico de drogas e o contrabando de armas; a preservação do meio-ambiente; projetos voltados para a área social; outras tarefas que normalmente cabem às forças policiais ou a outros órgãos da administração pública, é um desvio inaceitável da missão precípua do poder militar, que compromete o seu preparo para a guerra e leva-o a intervir no processo político nacional. Convém notar que o desenvolvimento de uma eficiente indústria militar nacional contribui decisivamente para a credibilidade do poder militar do país. Os blocos econômicos regionais podem criar a necessária economia de escala para a produção de alguns equipamentos e suprimentos militares e, mais importante que isso, levam os países membros a uma maior integração política e cooperação na área militar—a UE comprova a realidade desse processo o que, por sua vez, tem um efeito dissuasório muito importante, nem tanto pelo maior valor militar agregado - quase sempre pouco significativo - mas principalmente pelas óbvias implicações políticas decorrentes: se a Liga-Árabe tivesse mantido a mesma união demonstrada na reunião do Cairo no dia seguinte ao da invasão do Kuwait, a Guerra do Golfo não teria ocorrido; a quebra dessa unidade, através de concessões e pressões dos Estados Unidos, tornou a guerra possível. Estas considerações sobre o emprego político do poder militar trazem à discussão um ponto fundamental. Deve ficar evidente que o objetivo das Forças Armadas de qualquer país é o de aliar uma capacidade efetiva de ação política na paz - dissuasória ou de outro tipo - à capacidade de fazer a guerra com eficácia quando esta ocorrer. Dificilmente uma força desenvolvida primordialmente como uma força de combate deixará de ter credibilidade para o exercício do seu papel como instrumento da política nacional; conforme já vimos, uma força desenvolvida especialmente para o seu papel de instrumento da política nacional nem sempre estará apta para ações de guerra." (Extraído do artigo Uma Estratégia Naval para o Século XXI do Vice-Alte Armando Amorin Ferreira Vidigal) |
De todos os componentes de uma Força Armada, é a Marinha o setor mais dependente do planejamento a longo prazo, aonde é mais necessário, premente o profissionalismo e o preparo. Não se improvisa uma esquadra, muito menos uma marinha. Um NAe(Navio Aeródromo) pode demorar cerca de 10 anos entre o projeto e sua operacionalidade total. Uma Força de Submarinos(ainda mais se for nuclear) requer um alto grau de adestramento e manutenção, é, ao contrário do que muitos pensam, uma tarefa para poucos países do Globo, poucas marinhas do planeta são capazes de manter uma força submarina eficaz.
A menção destes dois meios navais(NAe's e os Submarinos Nucleares) não são mero acaso, na verdade, tratam-se hoje dos dois tipos de belonaves que tem atuação estratégica, porque a simples presença ou posse de um desses vetores em mãos de um dos protagonistas num conflito, forçará uma mudança de atitude, uma tática especial para enfrentá-los. Vale dizer são armas que podem mudar os rumos de um conflito naval, em uma única ação.
Não podemos esquecer que a única Força Armada capaz de projetar poder de forma total e em tempos de paz é a Marinha. As característica do poder naval são únicas, os oceanos não possuem fronteiras, suas riquezas estão ainda quase inexploradas, cerca de 90% do comércio mundial é feito por mar(95% no caso brasileiro), ademais cerca de 80% de nossa produção de petróleo vem de plataformas em alto mar, com grandes reservas também na mesma região.
NAe x Submarinos
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Arte do futuro NAe da Marinha Chinesa, trata-se de um NAe do tipo CTOL, provavelmente, terá propulsão nuclear, deslocando cerca de 70.000 toneladas carregado. A adoção de um navio deste tipo é o reconhecimento que uma esquadra equilibrada, dotada de Submarinos Nucleares e Navios Aeródromos, tornou-se algo imperativo na "nova" geopolítica mundial. |
A importância do NAe se deve a maior flexibilidade que sua presença concede ao poder naval que dele se utiliza. O Navio Aeródromo(NAe) pode projetar poder sobre a terra, mar e ar, controlar área marítima, o espaço aéreo, mostrar bandeira, atuar politicamente em tempos de paz, sendo ainda a arma ASW(anti-submarina) mais eficaz. Para defesa AAé de longa distância, a cobertura de radar é muito superior com aviação naval embarcada que qualquer cobertura de escoltas AAé de área, além de caros estes navios não podem ser comparados de modo algum ao desempenho de aeronaves de AEW(radares aéreos de alarme antecipado), associadas com caças e aeronaves para ataques navais. Quer em termos de alcance de detecção, quer em termos de distância para o ataque(este item será melhor analisado na segunda parte deste artigo). Outra grave deficiência das escoltas AAé de área e a falta de contato visual com o possível alvo, impedindo a defesa efetiva em caso de não guerra total. Como ficou demonstrado nos incidentes com a Fragata USS Stark e do Cruzador AEGIS USS Vincennes que abateu o Airbus iraniano.
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"Muito interessante a forma como foi posta a sua pergunta e que me permite tecer algumas considerações a respeito de um dos mais polêmicos aspectos da guerra naval da atualidade. Veja, estou apresentando um ponto de vista estritamente pessoal e não o resultado de qualquer estudo aprofundado a respeito. O problema da Defesa Aérea de uma Força Naval, em nossos dias, sofre violento impacto da tecnologia. Hoje não é, mais, o avião, no espaço marítimo em que os navios se podem aproveitar de sua inerente mobilidade, a maior ameaça à Força Naval. São, isto sim, os mísseis e estes podem ser lançados por navios, aviões e submarinos. Nas Malvinas vimos o HMS Sheffield ser atingido por míssil Exocet, lançado por avião Super Etendart, evento que poderia ser considerado como uma surpresa tática, segundo a visão de Toynbee. E vimos a Ardent e a Antelope(fragatas da RN) serem afundadas por bombas convencionais, lançadas de aviões, mas, neste caso, estavam elas, em águas restritas, limitadas em manobra, em ambiente em que não podiam usar quer sua capacidade de manobra para evadir-se do ataque, quer todo o seu armamento defensivo. E não podemos esquecer, os mísseis anti-navios e "sea skimmer" podem ser, também, lançados de navios e submarinos. Entendo que só há duas formas de nos contrapormos (nós, Marinhas) à ameaça do míssil anti-navio: é atuar diretamente sobre a plataforma de lançamento, destruindo-a antes que possa disparar seus mísseis; ou atuar sobre o míssil, no fim de sua trajetória, por meio de um sistema de defesa de ponto adequado, isto é, um sistema capaz de concentrar o maior volume de fogo possível sobre a trajetória do míssil ,destruindo o míssil a relativamente pequena distância do navio. Se no primeiro caso eu consideraria um sistema constituído de aeronaves de esclarecimento, aviões de caça e ataque e/ou mísseis anti-navio de maior alcance que os dos possíveis oponentes, para o segundo caso o ideal seria um sistema de defesa de ponto adequado, como os denominados Close-In Weapons Systens não vou repetir os nomes que são diariamente apresentados em todas as revistas especializadas. Poderíamos, ainda, cogitar de atuar sobre o sensor de direção terminal do míssil atacante usando contra-medidas eletrônicas ativas (eletrônicas ou mecânicas) mas acho que essas só seriam eficazes se conhecêssemos a frequência exata em que o sensor do míssil atacante opera e, dificilmente, ter-se-á tempo para utilizar a contra-medida capaz de neutralizar ou desgovernar o míssil. Na verdade, não são muitas as Marinhas que, nos dias de hoje, pensam em construir navios para a tarefa precípua de defesa de área. Os sistemas dessa natureza são volumosos, pesados e ocupam grande espaço a bordo, em detrimento de outros sensores e armamento, além de muito onerosos. E, mais que isso, necessitam de radares de grande alcance para a detecção das ameaças e radares de direção de tiro para a solução do problema de tiro e para a tele-direção dos mísseis até a hora em que possa seu próprio sistema de direção terminal levá-lo a interceptação do míssil atacante. Além disso, há de considerar-se a possibilidade de, em um ataque aéreo bem coordenado e executado, ser o sistema saturado pela quantidade de aeronaves, ou mísseis, atacantes. De qualquer forma, são concordes todos os estudiosos de assuntos navais, em que uma Marinha não pode prescindir de uma aviação de caça e ataque embarcada, capaz de atuar sobre as plataformas lançadoras dos mísseis antes que estes sejam disparados. A inexistência desse tipo de aeronaves, em nossa Marinha é, sem dúvida, um problema a exigir breve solução..." (Resposta do então Contra-Alte. Haroldo Bastos Cordeiro J. quando perguntado sobre a possível compra de Escoltas AAé de Área para a Marinha Brasileira) |
Ademais, do ponto de vista de recursos é mais barato manter uma esquadra com 02 NAe's com cerca de 40 aeronaves de asas fixas, que manter uma estrutura de bases terrestres para defender uma linha costeira com cerca de 7.400 kms de extensão, como no caso brasileiro, com o mesmo nível de efetividade dos dois NAe's. Imaginemos algo perto de 07 bases aéreas(uma a cada 1.000 kms!), com um esquadrão(12 caças) preparado para o ataque naval em cada uma, teríamos um total de 84 caças, mais alguns esquadrões de aeronaves de patrulha, AEW e ASW. Estas bases mesmo assim teriam uma clara desvantagem tática. A aviação naval possui mobilidade, algo que as bases fixas da aviação terrestre desconhecem. Somando-se a capacidade de concentrar todas as suas forças em apenas uma pequena área deste imenso TO(teatro de operações), já sabendo da localização de cada base terrestre, pronta para ser alvo de uma ação preventiva, este fato deixa a aviação naval com uma nítida superioridade, aliando a iniciativa ao fator surpresa. Não podemos esquecer que um NAe é uma base aérea móvel, muito bem defendida por um Grupo Tarefa de navios. Além de ser uma arma estratégica, um alvo prioritário a ser destruído pelo inimigo, antes de realizar uma projeção sobre a terra, condicionando deste modo o local do primeiro ataque.
Acrescente-se que a aviação embarcada pode operar em terra e o contrário não é verdadeiro. A capacidade de uma aviação baseada em terra, para realizar a cobertura aérea da Frota, restringe a cobertura aérea para as operações navais nas faixas de mar até o alcance de tais aviões. Mas sem dúvida o mais limitante é o fator tempo de reação. Dependendo da distância que o Grupo Tarefa estiver da costa, o avião baseado em terra poderá levar mais de uma hora para chegar ao TO, provavelmente, já será tarde para qualquer ação efetiva. O caça hoje com maior alcance baseado em terra não chega as 1.000 milhas náuticas(1.852 Kms.) de raio de combate, distância que do ponto de vista naval é pouco significante, diante da grandeza dos oceanos da Terra. Outro ponto interessante é que nenhuma região terrestre no planeta se encontra a mais de 2.000 milhas afastadas de algum oceano aberto.
Uma Esquadra equilibrada é superior a uma desequilibrada, como a 2a guerra demonstrou no passado e a URSS e China modernamente(a Marinha Chinesa está empenhada na construção de seu primeiro NAe, será um modelo CTOL de grande porte). Durante a 2a Guerra a US Navy conseguiu melhores resultados(perdas sofridas x perdas infligidas) com sua força de submarinos que os Alemães, porque Aviões e Submarinos são muito mais eficientes atuando em conjunto que isoladamente. O ataque aos comboios Aliados para Murmansk na Rússia foram mortíferos quando os alemães puderam atacar por ar, mar e com a possível ameaça da frota de superfície do norte. A despeito da descoberta dos códigos navais alemães, os submarinos alemães atuaram de forma impune no Atlântico Norte enquanto não existia cobertura aérea na área e havia uma esquadra de superfície alemã para distrair a Frota Inglesa, dispersando os comboios. Foi o NAe de escolta, com capacidade ASW plena, embarcando caça-bombardeiros Avanger armados com torpedos acústicos, que representaram o fim das matilhas de submarinos alemãs, estes NAes diminuíram de forma dramática o tempo de reação entre a detecção da presença dos submersíveis e seu efetivo ataque. Os comboios e FT's(Força Tarefa) tiram a vantagem tática dos submarinos, porque é certo que eles estão sempre na proximidade deles. Restringem sua capacidade de surpresa tática, facilitando a atuação da defesa ASW(anti-submarina), com o encurtamento da reação(o contra-ataque), fechou-se o cerco aos submarinos alemães, passando de caçadores para presas indefesas.
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A US Navy também foi a primeira Marinha que percebeu a importância do conceito forças combinadas, uma total interação entre os meios aéreos, terrestres(Fuzileiros), navais(superfície) e submarinos para um melhor desempenho bélico. Tendo uma visão moderna da linha de batalha naval, colocou as escoltas(contratorpedeiros, cruzadores e couraçados) protegendo a belonave estratégica, ou seja, o Navio Aeródromo, dando liberdade de ação a Força de Submarinos. Tanto os Alemães, quanto os Japoneses(principalmente estes) não desenvolveram este tipo de conceito tático naval, atuando suas Forças de forma desconcentrada e separadas. O pensamento naval japonês levou-os a uma derrota naval inevitável, possuidores da maior força aeronaval e uma das melhores flotilhas de submarinos no princípio da Segunda Guerra, jamais souberam tirar o máximo proveito destas duas armas.
Por todos estes motivos a posse de um NAe com aviação embarcada é um instrumento de fundamental importância para a estratégia naval moderna, seus opositores costumam sair pela tangente, alegando falta de recursos para a operação dos Navio Aeródromos, mas gastam centenas de milhões de dólares em escoltas AAé de Área, navios caros e com discutível utilidade bélica, outros pregam o aumento de gastos com a Força de Submarinos, me parece que aqui deve haver uma eleição de prioridades, com a Força de Submarinos sendo privilegiada, mas com os NAe's e a aviação embarcada em segundo lugar, somente depois viriam as escoltas ASW e E/G(emprego geral), quanto as escoltas AAé de Área, a preferência será por navios usados, adaptados ou sua completa ausência. A compra de ocasião de um NAe também pode ser a solução para a falta de recursos, principalmente para um segundo navio.
Outro fator alegado contra os NAe's é que precisamos de pelo menos 02 Navios para termos pelo menos um em serviço de forma permanente. Me parece que o número ideal seriam mesmo 02 navios para a MB, com um rodízio(um na reserva e outro na ativa) entre os dois com apenas um grupo aéreo completo de asa fixa. Uma vez dispondo de 02 cascos já operando, aviação naval pode ser aumentada em um espaço curto de tempo, quando se tornasse claro o começo de uma crise justificando o aumento com os gastos militares. Mas devemos ressaltar que a MB pode operar os Navios de modo que um ou dois fiquem quase 80% do tempo disponível, o segredo aqui é aumentar o nível de manutenção e sua frequência, diminuindo o número de dias mar de serviço. O NAe é uma arma estratégica, para ser usada em momentos de crise, fora deste período de tempo bastariam os cruzeiros curtos para treinamento e manutenção otimizada.
O mesmo raciocínio vale para a vida útil dos NAe's, uma manutenção maximizada aliada a um menor número de dias mar, podem elevar a vida útil de um casco deste tipo de navio para mais de 55 anos, mas neste caso é necessário uma previsão de projeto mais apurada, visando maior capacidade de adaptação do casco para o futuro. Isto é, quando mais flexibilidade de uso, múltiplos usos, melhor o será o projeto.
A Escolha do tipo de NAe
Existem hoje vários tipos de Navios Aeródromos, sendo que os critérios mais utilizados de classificação levam em conta o tipo de aeronave operada e a finalidade do navio. São eles:
CTOL(decolagem por catapultas e pouso convencional);
STOAL ou STOBAR(decolagem curta por rampa e pouso convencional com travamento) e
V/STOVL(decolagem vertical ou curta por rampa e pouso vertical), chamados também de NCAM(Navio de Controle de Área Marítima).
LHA.(uma combinação dos NAe´s de V/STOVL com os navios de desembarque de doca)
Além desses tipos existe um quarto tipo surgindo que combina o CTOL com o STOAL, como poderá ser o futuro projeto da Royal Navy, este NAe possui uma rampa do tipo Ski Jump(decolagem por rampa) e uma ou duas catapultas no convés de vôo em ângulo.
NAe tipo CTOL
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Dois NAes do tipo CTOL, ambos com propulsão nuclear, o CVN 65 Enterprise da US Navy, deslocando 89.000 toneladas carregado, e o Charles de Gaulle da Marinha Francesa, deslocando cerca de 41.000 toneladas carregado. |
Os NAe's do tipo CTOL(Conventional Tak-Off and Landing)são descendentes diretos dos grandes Porta-Aviões de Esquadra da Segunda Guerra Mundial, com as modificações introduzidas para a operação de jatos. Estes navios incorporaram catapultas a vapor para impulsionar o avião até sua velocidade mínima de decolagem, foi introduzido mais tarde o convés de aterrissagem em ângulo com os elevadores de aviões deslocados da linha central do casco para as laterais. Assim, configurado os NAes CTOL podiam realizar simultaneamente o lançamento e o recolhimento de aeronaves, de forma muito mais segura que antes, com o estacionamento de aviões no convés. A pista de pouso colocada em ângulo permitia que um avião arremetesse em caso de abortagem do pouso, sem o perigo oferecido pelo convés axial antigo. O primeiro NAe construído com todos estes melhoramento ainda na fase do projeto, foi a Classe Forrestal da US Navy, o primeiro navio foi completado em 1952. Porém, com o aumento do peso e das dimensões dos aviões embarcados, o NAe cresceu de tal maneira que, a Classe Forrestal deslocava 78.000 toneladas carregada, poucas nações do planeta poderiam arcar com os custos de construção e operação de tais navios. Assim, tornou-se inútil a construção de navios menores de 30.000 toneladas para a configuração CTOL, sendo que os novos navios estão deslocando no mínimo 35.000 toneladas carregados, mas tudo aponta para valores entre 40-45.000 toneladas no futuro próximo para tal configuração de NAe. A configuração CTOL é a mais flexível existente, os NAe's assim configurados podem operar qualquer tipo de avião, desde que, o peso de decolagem seja compatível com as catapultas a vapor e o aparelho de travamento da pista de pouso.
NAe do tipo V/STOVL e LHA
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O Invencible da Marinha Inglesa é um NAe do tipo V/STOVL, representava um novo conceito que buscava redução dos custos dos NAes do tipo CTOL, porém se revelou um navio de segunda categoria quando comparado com os NAes convencionais, deslocando 21.000 ton(Photo Royal Navy). |
Os NAe's do tipo V/STOVL (Vertical and Short Tak-Off and Vertical Landing) foram criados na tentativa de baratear os custos de construção e operação dos NAe's CTOL, aproveitando a tecnologia inovadora do avião de decolagem e pouso vertical Harrier. Desta forma podia-se eliminar as catapultas e as turbinas a vapor, adotando uma propulsão convencional idêntica aos navios de escolta. Estes NAe's são na verdade sucessores dos cruzadores de convés contínuo, idealizados para operações ASW(anti-submarinas) com helicópteros de médio e grande porte da década de 1960.
A primeira classe de Nae's V/STOVL foram os 03 Invencibles da Royal Navy, o primeiro dos navios foi incorporado no princípio da década de 1980. Também chamados de NCAM(Navios de Controle de Área Marítima) viraram um tipo de modismo bélico, com a construção por parte da Espanha e Itália de navios semelhantes. Porém, durante a Guerra das Malvinas em 1982, as limitações e falhas do conceito dos NAe's V/STOVL ficaram evidentes, estes NAe's não se prestam a projeção de poder, muito menos a atuar de forma consistente longe de suas bases, fora de área. A diminuição do tamanho do NAe implica numa redução das qualidade marinheiras, de alcance, de capacidade aeronaves, de manutenção e remuniciamento/apoio aos aviões embarcados. Como não podem operar outro tipo de aeronaves de asa fixa, não possuíam qualquer tipo de capacidade AEW antecipada, para tentar preencher esta importante lacuna a Royal Navy desenvolveu o helicóptero AEW(alarma aéreo antecipado), principalmente, após as perdas sofridas durante o conflito das Malvinas/Falklands. Estes navios podem ser encarados como um apoio aos NAe's CTOL, nunca um substituto destes. A economia de recursos obtidas não foi justificada pela relação custo benefício, e ao que tudo indica a próxima geração de NAe's V/STOVL não sairá do papel. Estão sendo substituídos por desenhos convencionais do tipo CTOL/STOAL, ou serão ampliados para a função de navios LHA, que combinam os V/STOVL com capacidade de transporte de tropa e também docas alagáveis, como a Classe WASP, ou o Novo NAe espanhol denominado de BPE(Navio de Projeção Estratégica).
Muitos colocam o problema da sobrevivência em combate dos NAe's menores, me parece que existem aqui dois aspectos da questão a ser analisada: a sobrevivência ativa(ou defesa ativa), medida pela capacidade de operar e manter um grupamento naval maior, neste caso os NAe's maiores levam clara vantagem neste item, porém quanto aos danos sofridos em combate(sobrevivência passiva ou defesa passiva), o tamanho do casco é menos importante que sua estrutura, a forma de construção(a blindagem, sistemas de controle de avarias e incêndios, estrutura reforçada e estanque subdivididas em compartimentos). O que se tem observado é que os NAe's maiores do tipo CTOL, por conta de seu custo, costumam ter cascos com estruturas melhores, mais capazes de absorver os danos de combate. É certo que um casco maior com a mesma proteção de um menor, levará vantagem nos dois itens citados. Entretanto deve-se deixar claro que estas qualidades não são inerentes ao tipo de NAe, CTOL, V/STOVL, etc., mas da forma com que o navio foi construído.
NAe do tipo STOAL ou STOBAR
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O Kutznetzov da Marinha Russa é um NAe do tipo STOAL, com propulsão convencional e deslocando cerca de 67.000 Toneladas carregado, representa um novo conceito, que busca redução dos custos com a manutenção da mesma capacidade dos NAe's do tipo CTOL. |
As limitações dos V/STOVL e a necessidade de ainda reduzir custos de construção e operação levou a um novo desenho de NAe, trata-se do tipo STOAL(Short Takeoff Arrested Landing) ou STOBAR(Short Take-Off but Arrested Landing). Este novo projeto surgiu na antiga URSS, durante a década de 1990 com a incorporação do NAe Kutznetzov, que aliava um convés em ângulo para aterrissagem convencional com uma rampa do tipo Ski Jump para aviões de decolagem convencional, mas especialmente modificados para operar a partir dela. Estas rampas são muito maiores que as anteriores do V/STOVL, e permitem lançar aeronaves muito maiores e capazes que os Harrier's. Mas a ausência de catapultas limitava a operação de aeronaves AEW, este problema foi contornado com o uso de helicópteros AEW. No entanto, estes NAe's possuem quase todas as qualidades dos NAe's CTOL, ainda que, a redução de custos fosse pequena, representada apenas pela ausência das catapultas a vapor.
NAe do tipo CTOL/STOAL
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O primeiro, um NAe CTOL/STOAL com 02 catapultas/elevadores e uma Ski Jump retrátil na proa. O segundo, um NAe STOAL/CTOL com 01 catapulta lateral e uma Ski Jump na proa. Ambos os modelos deslocariam cerca de 40-45.000 toneladas carregados, com um grupamento aéreo de 45 aeronaves. A propulsão seria convencional e cerca de 30 nós na velocidade máxima, com dimensões de 270 metros de comprimento por 55 metros de largura e capazes de operar aeronaves de até 25 toneladas de peso em suas catapultas. |
Na verdade, este quarto tipo de NAe é um somatório, um desenvolvimento lógico dos desenhos existentes hoje destes navios. A combinação de duas experiências (os modelos CTOL e STOAL) bem sucedidas em busca do aumento da flexibilidade ou da redução de custos. Como podemos observar um modelo STOAL equipado com uma catapulta lateral, preencheria a principal falha deste projeto, a incapacidade de operar aeronaves AEW de asa fixa. O Modelo CTOL com uma Ski Jump embutida na proa do navio, deixaria este desenho com uma capacidade e flexibilidade jamais alcançadas por um NAe antes. Podendo operar qualquer tipo de aeronave em seu convés de vôo. Além, disso a Ski Jump contornaria o problema do limite de peso na decolagem das catapultas a vapor. Em termos de custo, o primeiro modelo seria o preferido, se a visão fosse de maior flexibilidade o segundo modelo seria o melhor. Mas me parece que o futuro dos NAe's apontam nestas duas direções. É certo que a aparência geral do convôo poderá ser alterada para um desenho mais furtivo ao radar, e outras mudanças também poderão ser introduzidas visando a melhoria do desempenho geral do navio, mas deverão respeitar as capacidades dos NAe's CTOL. Não existe sentido em se construir navios tão caros e complexos com cascos de segunda categoria e graves limitações operacionais(V/STOVL).
O Futuro NAe(A-13) da Marinha do Brasil
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Os NAe's Minas Gerais(A-11) e São Paulo(A-12) da Marinha Brasileira navegando juntos. Este seria o ideal operacional da MB para NAe's, dois navios do tipo CTOL. |
De tudo que foi exposto neste artigo, fica evidente que a existência de uma aviação embarcada de asa fixa baseada em NAe's do tipo CTOL deve ser o ideal visado pela Marinha do Brasil. É claro que todos nós estamos preocupados com os custos da operação dos NAe's, principalmente a administração da Marinha, mas também da esquadra como um conjunto. Colocando na ponta do lápis os custos de compra e operação de um NAe podemos fazer as seguintes considerações:
o preço de custo de um navio guerra tem pouco haver com o tamanho da plataforma, sua estrutura de aço e seus sistemas propulsivos representam no máximo 20%(no caso de navios com propulsão nuclear) do valor total do navio, o tamanho da tripulação é importante para países ricos com populações pequenas e médias que recebem um alto salário e não para o nosso caso, os maiores gastos da construção se concentram nos sistemas eletrônicos, sensores e em seus armamentos, portanto, existe uma baixa relação custo benefício na economia de tonelagem para reduzir custos finais, sendo melhor construir um casco maior e mais capaz que um menor e incapaz de cumprir as tarefas que se esperam dele, quanto maior for a tonelagem menor será o preço por tonelada, por exemplo o NAe São Paulo usará, muito provavelmente, em seu armamento AAé, quase o mesmo conjunto das Fragatas Niteróis apesar de deslocar mais 09 vezes tonelagem, ou seja, 02 Radares de Direção de Tiro Orion RTN 30X, dois canhões de 40mm Trinity e dois lançadores Albatroz para mísseis Aspide 2000, utilizando somente mais um lançador de mísseis;
a compra de um NAe da Classe de 40.000 toneladas do tipo CTOL, com duas catapultas capaz de embarcar cerca de 45 aeronaves, com propulsão convencional custaria algo em torno de 01 bilhão de dólares a unidade, caso fosse construído no Brasil, já com toda eletrônica de bordo nacionalizada(com COC -Centro de Operações de Combate- do tipo SICONTA), somente os gastos nos sensores e armas de defesa AAé de ponto(curta distância) seriam de importações, sem incluir o preço do grupamento aéreo. Não podemos esquecer que uma parte deste grupamento aéreo já existe na esquadra na forma de helicópteros, assim faltaria apenas o grupo aéreo de asa fixa, o valor do NAe poderá cair se adotarmos um tipo híbrido CTOL/STOAL com uma única catapulta a vapor para menos de 800 milhões de dólares, restando ainda a opção da compra de um NAe usado(o NAe Foch custou apenas 12 milhões de dólares), para reformá-lo;
Um
NAe da Classe Invencible convertido para a função LPH, com a retirada do
lançador AAé de mísseis Sea-Dart e a rampa Ski Jump, podendo apoiar
tanto o NAe São Paulo, como um grupo de desembarque anfíbio, ainda com
capacidade de operar como NAe ASW (anti-submarino). Possibilitando
a Marinha Brasileira ter dois Navios Aeródromos. |
Ainda sobre o ponto de vista de redução de custos, pode-se propugnar a operação de dois NAe's, um modelo CTOL construído no país, e um segundo NAe usado, convertido para operar como NAe VTOVL e navio LHA(transporte e desembarque de tropas como a Classe WASP da US NAvy). A Royal Navy deverá desativar em breve(2005) o HMS Invencible que poderia ser convertido para a função LHA-VTOVL;
a alternativa para o uso de NAe's seriam escoltas AAé de Área. O preço de escoltas deste tipo no mercado internacional de balcão, navios novos com projetos já construídos, estão acima de 400 milhões de dólares a unidade, sem contar com os custos da aviação de ataque naval baseada em terra e de suas bases. Além das aeronaves AEW e Patrulha Marítima;
além disso, como já vimos, estas escoltas não são capazes da cobertura de AAé de área da mesma forma que um NAe com aviões AEW e caças navais(vide a segunda parte deste artigo). Ou seja, gasta-se quase o mesmo para se ter algo pior na defesa AAé e muito pior no desempenho geral da Força Naval, além de uma menor flexibilidade de uso. Estas escoltas são incapazes de qualquer projeção de poder, além de não representarem qualquer capacidade adicional em guerra ASW;
como é fácil notarmos, a oposição submarinos e NAe's não existe, nem mesmo em termos de custos, porque o NAe atua principalmente na defesa aérea e na projeção de poder, áreas nas quais os submarinos pouco podem fazer, a oposição em termos de gastos se estabelece entre os NAe's e as Escoltas de Defesa AAé de área. Porque ambos os meios atuam na mesma função. É claro que podemos mitigar os dois tipos de belonaves, na proporção de duas escoltas para cada NAe em operação.
a não existência de oposição entre os gastos com Submarinos e NAe's, não quer dizer de modo algum a inexistência de prioridades nos gastos da Marinha Brasileira, por sinal isso já vem sendo feito, a Força de Submarinos é hoje prioridade absoluta dentro do orçamento da MB, mas de forma alguma pode ser a única. Infelizmente a volatividade do cenário internacional não nos aconselha de modo algum gastarmos todos as nossos recursos numa única opção.
Finalmente, também devemos tomar cuidado com a chamada "Síndrome do Estado Mínimo", é necessário que o orçamento de defesa seja contemplado com recursos suficientes para fazer frente as necessidades de uma Força Armada digna do nome, com capacidade operacional e tecnológica para se contrapor às ameaças futuras. De corte em corte de verbas podemos chegar a um ponto de total inutilidade do aparato bélico como um conjunto. É preciso dizer bem claro, para determinados tipos de gastos públicos a economia feita de forma meramente financeira poderá se revelar muito mais cara, posteriormente, que os gastos feitos de forma regular segundo um planejamento de longo prazo, o exemplo da crise energética no país demonstra cabalmente o quanto a falta de visão e previsão podem ser danosas para uma nação.
Com o Governo do Presidente Lula, importante passo foi dado na direção de uma política de defesa coerente, com o lançamento do Documento denominado de END ou Estratégia Nacional de Defesa, pela primeira vez em nossa História contamos com um texto capaz de delinear os novos rumos da Defesa e o balizamento de seus gastos.
Parte II do Artigo